quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sábado 25 de Agosto

Sábado 25 de Agosto
Finalmente a trabalhar de sol a sol

Os grupos começaram a trabalhar, acorrendo na escola como primeira necessidade.
Eu e o Zé Fernando, conduzidos pela Irmã Ana Paula e na companhia da irmã Madalena, com uma miúda que tinha de ir ao hospital pois estava com Paludismo, fomos a Gurué às compras, os outros grupos já se preparavam para começarem nos seus locais.
Entretanto tinha vindo um carro do Paço, para levar o Armando, Abílio e Tiago, pois iriam tratar dos computadores.
Construção de um passeio, na época das chuvas além de ficar todo alagado, como a terra é barrenta, os alunos sujam as salas todas, 17 sacos de cimentos foi o necessário, além de termos de ir carregar pedra às montanhas para servir de cascalho.
Canalização, muitas eram as torneiras que não funcionavam, substituir umas arranjar outras, no fundo estavam a perder uma das maiores necessidades desta população “Água”.
Carpintaria, esta escola têm 7 anos, creio nunca ter tido obras de fundo em pequenas reparações, portas que não fechavam, ou por falta de fechaduras ou outras avarias, não eram atos de vandalismo como se vê muito nas nossas escolas em Portugal, simplesmente avarias para as quais não há resposta, porque o estado apenas paga a professores e não um funcionário para estas pequenas tarefas diárias.
O dia de trabalho até foi proveitoso, todos distribuídos em diversos setores, até o Armando, Tiago e Abílio se deslocaram a Gurué á residência do Senhor Bispo para fazerem não apenas reparações nos computadores, mas igualmente alguma atualizações e descarregar programas de software, antivírus, assim como de limpezas.
Muito próximo do meio-dia chegávamos com o material que tínhamos comprado para fazer as reparações necessárias nos diversos setores, tínhamos gasto segundo a irmã Madalena, uma pequena fortuna foram cerca de 15 mil meticais pouco mais de 500€.
- Só este cimento diz-nos o Guilherme, já gastamos os 5 sacos e vamos precisar de mais de 30.
- Eh pá, olha que cada um custa 150 meticais isso aqui é muito dinheiro e quem fez a multiplicação dos pães e dos peixes foi Cristo eu não o consigo fazer. Respondi a sorrir.
- Desenrasca-te Zé, disse o Carlos.
Na verdade estava mesmo tramado, naquele momento apeteceu-me não apelar só a Cristo, mas aos Santos todos, para fazer crescer o dinheiro. Depois de descarregar, fomos almoçar, embora a boa disposição perdurasse, algum mal-estar entre elementos era notório, que pouco a pouco foi desvanecendo-se com o descarregar de material, pois a nossa missão verdadeiramente dita iria começar. Alguns elementos já nem queriam almoçar o desejo de deitar mãos á obra era imenso, mas por vezes é bom, deixar falar mais alto a razão do que o coração e lá fomos fazer bem ao estômago que já pedia e as irmãs já nos tinham chamado, olhando uns para os outros sorriamos, ver quem estava mais sujo.
Como Escuteiros sempre o fizemos, mas neste dia, mais empolgados agradecemos a Deus pelos alimentos da machamba, mas igualmente por estarmos enfim a trabalhar em prol daquela missão, tentando de alguma forma deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos.
O sol estava a pico, e o calor era imenso, a água que nos matava a sede parecia chá, mas sabia bem, as roupas coladas ao corpo de transpirar, mas fazíamos o trabalho com um carinho acrescido, o passeio começava a ganhar forma, mas depressa o cimento tinha acabado, os muros começavam a ganhar uma bela cor verde kiwi, as janelas começavam a ficar com alguns buracos abertos de tirarmos os vidros que estavam partidos.
Começava a anoitecer em Invinha, um por do sol maravilhoso se via no horizonte o vermelho fogo, fazia inveja aos nossos braços e costas, as carecas essas também em nada ficavam a dever á cor salmonada de cada um. Fomos tomar um merecido duche depois de arrumar as coisas, entretanto os que se tinham deslocado a Gurué ao Paço também chegaram, dando conta do imenso trabalho que lá fizeram e se mais não fizeram foi porque não encontraram peças para arranjar os computadores, até a fotocopiadora e as impressoras ficaram a trabalhar, D. Francisco, esse não cabia em si de contente com o trabalho realizado por nós e mandou os cumprimentos dele a todo o grupo agradecendo a Deus a dádiva que lhes tinha chegado através dos Escuteiros da Região de Braga.
O Zé Fernando,
Depois do jantar as chamadas da praxe para casa de cada um, mais uma animada festa conjunta entre as jovens da Casa e o nosso grupo, o Guilherme, bem esse em nada nos surpreendeu, parecia que tinha eletricidade e estava em todas até se pintou para parecer um preto, quase todos nós parecíamos, pois o bronze forçado já se fazia notar em alguns, outros pareciam mais índios.
Aproveitamos o momento de divertimento, para distribuir algumas prendas às jovens da casa, não era muito, mas algum material escolar, sabonetes e pasta de dentes, para nós elementar, mas para eles uma raridade.
Aquelas jovens, com certeza que iriam dormir com um sorriso muito mais rasgado, tal era a felicidade delas, não conheceram a irmã Flora, algumas nem tão pouco tinham ouvido falar dela, apenas recentemente na preparação para a nossa visita, mas sem duvida que era uma dádiva a nossa chegada com os presentes que não sendo nada especiais para eles eram muito, até um simples rebuçado.
Pouco a pouco, a resistência ia quebrando e o sono também e cada um recolheu aos seus aposentos depois da habitual avaliação que diga-se não correu nada bem.
Mais uma vez a discórdia e a discussão, o stress começava a apoderar-se do grupo, talvez por querermos fazer muito e não nos estava a ser dada essa hipótese ou porque um ou outro elemento estivesse em busca do protagonismo, a verdade é que não correu nada bem, chegando ao ponto de pensarmos acabar com estas avaliações que a nada estavam a levar, senão um reavivar de discussão,
- Vai ser isto todos os dias. Perguntou a Cláudia Gomes.
- Realmente para discutirmos, mais vale irmos dormir. Disse o Costa
- Isto deve ser do cansaço. Mas acho melhor no futuro, prepararmos o dia seguinte e esquecer o dia que passou para que isto não volte a acontecer. Respondi eu.
- Até aqui, era por não haver trabalho, agora que começamos a trabalhar qual é a razão? Perguntou de novo a Cláudia.
- Será que depois dum dia cansativo como o de hoje, vocês ainda têm tempo para esta discórdia? Não somos todos amigos e acima de tudo escuteiros?
- Sabem, hoje é um dia por si só bastante triste para mim, mesmo que tenham passado muitos anos, faz hoje 37 anos que morreu o meu pai, e acho que não estamos aqui para discussões supérfluas, até amanhã, e afastei-me do resto do grupo.


Devia ser apenas o stress de um dia cheio de trabalho, já com os ânimos mais calmos, cada um recolheu-se aos seus aposentos. Como o meu quarto ficava junto ao do Zé Fernando e porque o vi abatido, depois de ter tomado banho, bati á porta para falar com ele um pouco.
Quando me abriu a porta, era notório que tinha estado a chorar, sim os homens também choram e não é vergonha nenhuma, pessoalmente nada mais me magoou de que ver este homem chorar, é sem duvida a ele que se deve esta atividade, foi ele que sonhou e com certeza mais trabalhou para a concretização da ida a Invinha, foi o Zé Fernando o grande mentor e impulsionador, não merecia de forma alguma passar por situações que tem passado.
Nesse momento pensei para com os meus botões:
- Não custa nada seguir uma grande viagem, mesmo que a mesma seja numa carroça, porque no fundo quem vai em cima é puxado.
- Será que todos os elementos, estão com o espírito que se pede a um escuteiro? - Pensei para comigo em voz alta partilhando com o Zé Fernando, que com voz ainda aos soluços dizia.
- Talvez seja o que merecemos por todo o empenho que pusemos nesta atividade, custe o que custar levaremos até ao fim, depois logo se vê.
Eu continuava a memorizar todas estas passagens, que um dia havia de transcrever para papel, sem querer de forma alguma ferir suscetividades.

Com um abraço e uma até amanhã fomos descansar, pois esperava-nos um dia especial, em que iríamos ser recebidos em comunidade.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

6ª Feira 24 Agosto Segundo dia em Invinha

Mais um amanhecer nas longínquas terras de África, ao som do chilrear dos pássaros e o aroma daquela terra barrenta, misturado com alegre cantarolar das crianças do internato. O pequeno-almoço já esperava por nós, não nos sentíamos de forma alguma satisfeitos, pois a nossa estadia estava de certa forma a ser de mera visita e laser e não o que nos propusemos desde de início, deixar a nossa marca com trabalho voluntário.
O trabalho para o dia já estava delineado, iríamos continuar com a distribuição de pão agora pelas ruas e pelas escolas em especial aproveitando a viagem até Gurué, pois iríamos visitar o Padre Luciano, que nos recebeu muito cordialmente e acompanhou-nos numa visita pelo espaço, aqui tivemos a oportunidade de ver alguns animais selvagens, nomeadamente crocodilos, aranhas gigantes e outros animais, ficamos também a perceber, que neste local além de estarem jovens internos também estão em regime de internato seminaristas e alguns escuteiros que pertencem ao Grupo de Gurué, além de que a quinta também serve, para alojar algumas entidades que de visita a Gurué possam desfrutar dum local de acolhimento com alguma segurança.
O padre Luciano, logo nos lançou o convite para um encontro entre os jovens do nosso grupo, os seminaristas assim como o Grupo de Escuteiros de Gurué e alguns jovens que quiséssemos trazer de Invinha, para quem sabe as sementes do escutismo, que mesmo não sendo a nossa prioridade seria sem dúvida um objetivo, mais uma vez o entusiasmo fazia-se notar na nossa face. Este encontro ficou marcado para o Domingo às 15 h com jantar e partilha de conhecimentos através do jogo. A manhã chegava ao fim e a fome também começava a apertar, tínhamos também marcado uma reunião de avaliação para a parte de tarde e um levantamento do ponto da situação, a nossa conversa com a irmã Madalena, tinha dado resultado e por fim iríamos deitar mãos á obra. Não foi de todo fácil fazermos as equipas, porque todos queriam estar em todo o lado, mas o nosso objetivo inicial iria ser cumprido com a divisão do grupo em função das suas aptidões profissionais. Também era necessário fazer um levantamento do trabalho a realizar, assim como o material necessário, desta forma ficaram constituídos os grupos.

Grupo de Eletricidade
Zé Fernando * Costa * Paulo * Luís

Informática e contabilidade
Tiago * Abílio * Armando

Saúde * Educação
Sara Cunha * Liliana * Patrícia Ribeiro * Marta * Patrícia Pereira *Cláudia Gomes * Sara Pereira

Construção Civil * Carpintaria e Canalização
Guilherme * Nelson * Diana * Cláudia Daniela * Tânia * Carlos

Responsável material e compras
Zé Maria

Agricultura
Todos dariam o seu contributo num dia em que juntamente com as pessoas da aldeia iríamos fazer os trabalhos de preparação para as sementeiras, na Machamba, assim se chamava o campo.
As Equipas iam mudando de local em função das necessidades, muito era o trabalho e apesar de sermos 21 elementos em algumas situações éramos poucos para o trabalho a fazer, tínhamos na verdade de valer em muitos locais.

Como responsável na aquisição de material e pelo levantamento de trabalhos a efetuar em alguns momentos atei as mãos na cabeça e partilhei com o Zé Fernando a minha preocupação, não sabia como havia de esticar o dinheiro para valer a tantas necessidades, mas o que mais me marcou foi a biblioteca e o material escolar, as crianças vêm para a escola apenas com um rudimentar caderno de apontamentos, livros não existem, apenas alguns e em mau estado na biblioteca que acabam por servir de consulta, para os cerca de 1000 alunos que frequentam a Escola Secundária Madre Maria Clara.
Depois de conversar com a Irmã responsável da Escola e diretora ficamos a saber que muitos destes alunos deslocam-se de bicicleta de aldeias distantes e a grande maioria a pé, demorando em muitos casos mais de 3 horas, pois transportes públicos não existem. Pior ainda a escola começa às 06,45 com a formatura e apresentação, com algumas notícias e o canto do Hino nacional, mesmo sabendo que esta escola tem cariz Católico ela é frequentada por alunos de outras religiões nomeadamente Muçulmana e até Hindus, não deixam de fazer as suas orações. Na verdade a evolução, como se costuma dizer, em Portugal retiraram os sinais de catolicismo das escolas, mas também retiraram o que nos marca como nação, se a moeda com a adesão á moeda única fez desaparecer o escudo, a bandeira Nacional já é sub valorizada em relação á bandeira da União Europeia e até o Hino deixou de ser um hábito nas nossas escolas daí não ser de admirar que a grande maioria dos nossos jovens não o saibam cantar.
Na biblioteca dei-me conta das muitas necessidades, nomeadamente:

Dicionários de Português – Inglês – Português
Dicionário de Português – Francês – Português
Livros de Filosofia 11º e 12º ano
Livros de Biologia 11º e 12º ano
Livros de matemática todos os anos
Além de como já referi antes quase todo o material escolar.

A noite começava a cair e a lista de trabalhos e respetivas necessidades a aumentar, como iriamos transportar cimento, ferro, areia, vidros etc. para fazer face às reparações necessárias na Escola, e na casa principal. Tínhamos pela nossa frente o árduo trabalho de fazer um passeio de mais de 50 metros, carregar com pedra e fazer as cofragens, tínhamos muitos interruptores, lâmpadas, tomadas para mudar, até o ar condicionado e os computadores da secretaria tinham de sofrer reparações, além dos muitos vidros partidos, fechaduras e torneiras para substituir, e não se pense que era por vandalismo dos alunos, era tão só falta de manutenção por pessoal qualificado e das intempéries do clima ao longo dos anos.
A ansiedade de começar os trabalhos era evidente, alguns já tinham andado a preparar durante a tarde os muros que iriam ser pintados, outros já preparavam o terreno onde iria nascer o passeio, já não havia fome, foi necessário mais que uma vez a irmã Ana Paula, vir chamar o pessoal, o Barnabé, bem esse levava-nos a tantos sítios para ver o que fazia falta e eram tantos que já dava impressão de termos lá passado mais que uma vez, a lista era imensa, começávamos a ter algumas dúvidas; será que encontraríamos o material que queríamos? Será que tínhamos dinheiro que chegasse?
Foi com todas estas dúvidas que depois de tantas insistências da irmã Ana Paula nossa guia espiritual e até da irmã Palmira, responsável do Hospital, que nos sentamos á mesa para jantar.
Nesta noite e porque as crianças não tinham escola no dia seguinte, quisemos ser nós a brindá-los com uma pequena festa e animação, fazendo com que através do jogo escutista os inseríssemos nas brincadeiras, as jovens deliravam, começava a haver uma forte empatia, queriam saber tudo sobre nós, quem éramos? Porque viemos? O que fazíamos na nossa vida pessoal? Sei lá tantas coisas e tantas perguntas que às vezes era preciso ter certo cuidado, para não melindrar aquelas jovens, algumas delas tão já magoadas pela dura vida.
Como habitual, pouco depois das 22,30 o dia chegava ao fim, com as orações e uma última canção cada um recolhia aos seus aposentos, alguns ainda aproveitavam enquanto os cães não estavam soltos para fumar um último cigarro ou até para telefonar aos familiares.

Apesar de alguns e pequenos conflitos, já se notava uma certa alegria, por enfim estávamos a trabalhar prol daquela gente.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

5ª Feira 23 de Agosto

Primeiro dia em Invinha

O amanhecer em Invinha é bem cedo, logo por volta de 5 horas começa a clarear o dia, acordamos com o chilrear dos pássaros, o ladrar dos cães que tanto nos recorda o nosso Portugal e as nossas aldeias, mas também com as vozes das crianças da missão que se preparam para irem para a escola, desde a higiene pessoal até um pequeno-almoço, antes das aulas que começam com a concentração no campo de jogos logo às 6,45h.
Nós no entanto como ilustres visitantes, como diziam as crianças, podíamos levantar mais tarde, o nosso pequeno-almoço era apenas às 7,30 horas, café com leite, manteiga e chocolate, eramos tratados duma forma que não queríamos nem desejávamos, desde o princípio o nosso sonho era, ter o mesmo tratamento daqueles que nos rodeavam, queríamos ter a noção do que é ser jovem e criança em Invinha onde a Irmã Flora se dedicou de alma e coração, mal nós sabíamos que havíamos de sair deste local sem saber essa realidade.
O retemperar de forças chegava ao fim, e já os jeeps se encontravam prontos para nos transportar até Gurué, onde além de visitar a cidade e capital de distrito iriamos também ser recebidos pelo Senhor Bispo.

Fomos recebidos por Dom Francisco, que além de nos mostrar a sua obra, nos recebeu com muito carinho, aqui na residência episcopal com uma vista fenomenal sobre o monte Namúli, tomamos conhecimento das dificuldades que mesmo um Bispo naquelas longínquas terras passa, Dom Francisco tem a Nacionalidade espanhola, tem uma casa simples dotada de algumas infraestruturas, como internet, mas onde a maioria dos computadores não funcionam devido á falta de manutenção, uma secretaria onde a maior parte das coisas são feitas á mão e arquivado depois.
As obras de recuperação que está a fazer assim como ampliação, visa dotar o paço, duma residência/casa de repouso para padres em recuperação, assim como visitantes que eventualmente passem por aqui, não é nada especial, mas num local daqueles é de certa forma um luxo.
Oferecemo-nos para mandar alguém do nosso grupo, para ajudar no que pudéssemos em especial arranjar os computadores e fazer-mos alguma manutenção, ficamos assim combinados que o Tiago, Abílio e Armando, no sábado seguinte iriam para a residência do Senhor Bispo.
Depois de comprar algumas recordações em especial, livros e trabalhos em madeira, Dom Francisco convidou-nos a visitar a oficina onde alguns artesões trabalhavam a madeira e por fim um café e aí nos deu a conhecer um correio eletrónico que tinha chegado de Portugal de alguém preocupado por não ter noticias nossas. Logo deu resposta, com a promessa de que cada um de nós telefonaria aos seus e entre gargalhadas lá continuamos a falar do que era a nossa aventura, o que nos tinha trazido a estas terras tão distantes de Fafe e Vieira, o sonho de fazer algo pelos outros e acima de tudo a vontade de prestar uma homenagem á Irmã Flora, que Dom Francisco não conheceu, mas de quem tinha escutado coisas maravilhosas, falamos como não podia deixar de ser do escutismo e do que é ser “Escuteiro Católico”, os olhos do senhor Bispo brilhavam, mostrando a vontade de que fosse possivel formar escutismo em Gurué, assim pediu-nos que passássemos á residência do Padre Luciano, pois seria alguém interessado nesse projeto.
Depois das despedidas e do convite por parte da irmã Ana Paula e Madalena, para que o senhor bispo estivesse presente na semana seguinte em Invinha, para um almoço com os pobres e carenciados, este consultou a sua agenda, pois andava em visitas pastorais e teria de aproveitar o tempo propício antes das chuvas de outono pois nessa altura não seria possivel visitar as aldeias mais do interior, porque as estradas estariam inundadas e desta forma intransitáveis, mas um sim foi a sua resposta depois de mais uma insistência da nossa parte.
Passamos em Gurué, por diversos locais, as estradas esburacadas e em terra batida, com os esgotos á vista, deixavam um cheiro nauseabundo ao qual não estava a ser fácil ambientar-nos, o mercado ao ar livro onde se encontrava de tudo, o peixe e carne empestado de moscas, os pregos e parafusos á mistura, o material elétrico, os perfumes de fraca qualidade e o tão desejado sabão (caríssimo) o sal a granel duma cor esquisita tudo se podia comprar desde que houvesse meticais, o que na verdade não estava ao alcance de todos. Algumas pessoas aproveitavam para venderem os seus produtos da terra, ou até os bolos confecionados por eles mesmo mas nos quais a higiene deixava um pouco a desejar e nenhum de nós se atrevia a provar, não fossemos brindados com uma diarreia.
Aproximava-se a hora do almoço, uma passagem rápida á casa “Artes e Ofícios” também uma obra de Padres Italianos em especial o Padre Hilário e por fim a visita á Associação do Padre Luciano, por conselho do senhor Bispo, pois estaria interessado em formar o escutismo católico.
O Padre Luciano devido a outros afazeres, não nos poderia receber, eventualmente apenas da parte de tarde. 
Regressamos a Invinha para almoçar, peixe frito, salada e arroz, sem faltar o café no final, começava no grupo a sentir-se alguma frustração, afinal tínhamos vindo para trabalhar e andávamos a passear, não foi para isto que viemos de tão longe a Invinha, queríamos deixar a nossa marca, queríamos fazer algo com as nossas próprias mão, queríamos tal como a irmã Flora dedicar um pouco de nós aquela gente que tão bem nos recebeu.
Mais uma vez nos deslocamos a Gurué para estarmos com o Padre Luciano, o que para grande deceção nossa, não foi possivel, á entrada estava um Guarda que além de nos impedir de tirar fotos, apenas se predispôs a chamar Dom Manuel, o ex. Bispo de Gurué, ficamos contentes, ao menos não perdíamos tudo, e foi com um sorriso que Dom Manuel nos recebeu, fazendo questão de cumprimentar um a um cada elemento do grupo, pois já tinha escutado noticias sobre a nossa vinda e do que vínhamos fazer, ele que tinha lidado de perto com a Irmã Flora traçou os mais altos elogios á obra desta santa mulher que ilumina o nosso caminho desde o longínquo ano de 2009 em que iniciamos esta caminhada.

Dom Manuel tinha deixado o paço aquando de um AVC e estava recolhido na Associação do padre Luciano onde dava apoio aos jovens que recolhiam para estudarem, custava-lhe imenso a caminhar.

Depois de mostramos a intenção de nos encontrarmos com o padre Luciano por incentivo de Dom Francisco, e insistência da irmã Ana Paula, Dom Manuel, marcou para que no dia seguinte á tarde voltássemos para uma visita local e o tão desejado encontro, entretanto a irmã Madalena não parava de magicar, aquela santa mulher ainda não tinha saído de uma já estaria a pensar na próxima, já tinha telefonado a encomendar cerca de 2 000 pães, pois fazia questão de que distribuíssemos não só na escola de Invinha mas também nas ruas e nas outras escolas das redondezas, pelas crianças pão com manteiga, assim de seguida fomos á padaria buscar a encomenda de mil pães e alguns quilos de manteiga, era a nossa tarefa no final do dia colocar manteiga no pão para fazermos uma primeira distribuição logo pela manha. Pelo caminho ainda compramos sal e sabão, assim como sabonetes e pasta de dentes entre outras coisas necessárias para a missão.
Antes do jantar as jovens tinham preparado uma celebração da palavra uma vez que o padre que estava previsto vir celebrar não podia, acontecia muitas vezes pois tinham de se deslocar e não era fácil com os transportes, foi uma celebração simples, mas que muito nos agradou, rejuvenescendo de alguma forma o nosso corpo espiritualmente, depois do jantar aproveitamos para passear um pouco, aqueles que o quisessem fazer, telefonar, sendo que teriam de se deslocar para fora da missão a caminho da igreja, o que por um lado era um privilégio, pois podíamos contactar com as pessoas que nos olhavam com alguma estranheza. 
O jantar á hora habitual, frango frito e batatas fritas acompanhado de uma salada, tudo produtos da machamba (campo onde cultivam tudo) da missão, no final do jantar uma volta pela missão e mais um alegre fogo de conselho em que não só nos divertimos como divertimos também aquelas jovens, que mesmo longe dos seus familiares pelas mais diversas razões nos mostravam que a vida deve ser levada com alegria e um sorriso, mesmo que o seu coração chorasse, cantavam alegres melodias que nos enchiam de felicidade fazendo por momentos esquecer que estávamos longe dos nossos familiares. A noite chegava depressa e com ela, as nossas avaliações, entre algumas discussões, chegava-mos mais uma vez á conclusão que tínhamos vindo a esta terra para dar um pouco de nós e era mesmo o que queríamos fazer, a missão precisava imenso; vidros nas janelas fechaduras nas portas, redes mosquiteiras nas janelas, lâmpadas e tanto, tanto mais. Decidimos então que no dia seguinte falaríamos com a irmã Madalena a responsável da missão, queríamos fazer algo, começar a trabalhar, se por um lado era importante conhecer o terreno, as pessoas etc., por outro lado o nosso coração ansiava por fazer algo por aquelas pessoas. Tínhamos já terminado a nossa tarefa mais de mil pães já tinham manteiga para serem distribuídos pelas crianças e com o nosso coração feliz deitamo-nos felizes.

sábado, 23 de março de 2013

4ª Feira 22 de Agosto Viagem atribulada de Quelimane até Invinha




Foi dormir a correr, o despertador começa a tocar, corpo ainda dorido e olhar cansado, levantar às 4 da manhã tínhamos uma longa viagem pela frente de Quelimane até Invinha, depois de um reconfortante pequeno almoço, café pão e fruta, entre algumas riso-tas íamos carregando as malas, ainda 300 km nos separavam no local que iria ser a... nossa casa durante os próximos dias, muitos foram também os contratempos, eram tão só 24 pessoas numa carrinha com capacidade para 14 e os mais de 3 mil quilos de material que levávamos excedia em muito os 1500 permitidos na viatura, às 4,30 estávamos a despedir-nos das irmãs Franciscanas sem muito ruído para que as crianças não acordassem, esta viagem estava destinada a fazer história, íamos todos ao monte e fé em Deus, mais amontoados que sardinhas em lata, logo ao sair da missão a carrinha bateu por baixo e soltou-se o pneu suplente, “ El Gordo” o nosso simpático motorista, que o Zé Maria junto dele era um mister universo, em nada podia comparar os seus 110 Kg com os quase 200 do motorista, mas tinha uma ginástica de fazer inveja com o ajudante, lá encaixaram de novo o pneu e nos fizemos de novo ao caminho, bem o Zé Maria e a Irmã Ana Paula iam que nem lordes no banco da frente junto do motorista, os outros esses faziam das tripas coração para caberem todos, mas a boa disposição perdurava, pelo menos até ao momento em que íamos a sair da Zona de Quelimane e tivemos um controle do exército, tudo bem e ate um sorriso por ver aquele enlatado de sardinhas na carrinha do “ El Gordo”, que como se não chegasse, tivemos mais um controle da policia, todos tivemos de sair e aqui eles já não gostaram da brincadeira, era ver a admiração dos policias, com os que saiam da carrinha, ainda não tínhamos chegado aos 15 e já estavam a perguntar:
Ainda há mais?
Não gostaram nada mesmo do que viram e o “El Gordo” teve de pagar, não uma bela multa, pelo não só excesso de peso de bagagem e também de pessoas, embora isso já fosse habitual por aquelas zonas, mas claro por baixo da mesa foi passando as notas de meticais.
Não, não era suborno, quem fala nisso era apenas um obrigado por nos deixar seguir viagem.
Podem seguir, foi o que quisemos ouvir, pior foi acomodarem-se de novo, bem o Zé Maria e a Irmã Ana Paula não tiveram esse problema, mas entre alguns gritos por pisarem os calos e gargalhadas á mistura lá seguimos viagem.
Depois de quase 180 Km e já com umas largas horas de viagem, um pneu furado.
Que mais nos irá acontecer? Lá teve de trabalhar “El gordo e o seu ajudante, mudar o pneu até era tarefa fácil.
- Oh Zé Fernando, estás a ver o pneu suplente? Perguntou o Tiago ao Armando.
- Puxa, está mais careca que o Zé Maria, até tem os arames á mostra, respondeu a Liliana.
- Não passa nada, respondeu “ El Gordo” quando voltar compro outro e logo que possa arranjo este.
Lá seguimos viagem novamente, ao menos deu para esticar as pernas e apanhar um pouco de ar naquela manha, começava a fome a apertar, valeram algumas bolachas que fomos distribuindo uns pelos outros, até que uma paragem numa aldeia á beira da estrada, para arranjar o Pneu furado e claro tirar o carequita. Quando saímos as nossas fardas chamaram a atenção, amontoavam-se as pessoas a quererem vender algo, desde a galinha dependurada de cabeça para baixo.
- Coitada da galinha, o que ainda tem de sofrer antes de ser papada disse o Paulo.
O Peixe a cheirar mal, os muitos frutos e como não podiam faltar os bolos artesanais cobertos de moscas, sem faltarem os cachos de bananas, cada cacho custava 100 meticais.
- Já viste Zé, apenas 3 € e são mais de 50 bananas, disse o Abílio - Bem, vai ser o nosso almoço malta.
- Pois o problema vai ser decidir a quem vais comprar, respondeu o Zé Fernando.
- Atira moeda ao ar, disse o Tiago
- Nem uma coisa nem outra é a que tiver mais pois é porque vendeu menos e está mais pesada e lá compramos um grande cacho. Pareciam macacos a comer bananas, não fizemos contas a quem comeu mais, mas a verdade é que desapareceram num instante.
- Se alguém andasse de diarreia logo estava durinho, disse o Guilherme.
- Com esta viagem sempre sentados e tão demorada o problema vai mesmo ir á sanita, rsrsrsrsrsr ria-se a Patrícia.
- Pessoal está a entrar, o pneu está mudado e vamos seguir viagem, ainda nos faltam mais de 100 Km, disse o Armando que acompanhava de perto os trabalhos. Mais uma vez todos ao monte e enlatadinhos para não terem frio, a viagem seguiu, estávamos agora a atravessar um troço de estrada que era em terra, andava em obras, pouco mais de 30 Km tínhamos percorrido quando fomos alertados pelo Guilherme que sentia um barulho estranho.
- Não acham que está a fazer atrás um barulho estranho?
- Oh, não digas que é outro furo, logo respondeu o Costa.
- O melhor é parar, oh senhor motorista pare, porque há um barulho estranho aqui atrás, disse o Carlos.
Um bocado contra gosto “ El Gordo” parou, era um descampado, mas uma paisagem bela, viam-se alguns pássaros no ar. Quando o Guilherme saiu ficou amarelo, afinal o barulho que se fazia sentir era a roda que estava solta, apenas tinha a prender 1 parafuso, os outros estavam partidos e o cubo de rodas também, o expert na matéria “ El Gordo”. Não há problema, podemos seguir agora a estrada é boa e dá para chegar a Invinha-
- O tanas, é que vamos, logo disse o Nelson.
- Da forma que está, é para irmos por uma ribanceira a abaixo. Logo respondeu a Diana.
Vai cão vai casota vai tudo, e não foi para isso que viemos para cá, disse a Patrícia que se tinha mantido calada, a Irmã Ana Paula falou como o motorista e este ligou, para um colega, que estava a passar por esses lados e iríamos fazer o transbordo, saímos do “El Gordo” e entramos no “Rock Santeiro”, de mal a pior se numa carrinha nos aconteceu de tudo este era mesmo maluco a andar….
- Oh Santeiro, nós até acreditamos em milagres mas olha lá se andas mais devagar com a chafarica, quem já leva 10 horas de viagem, também pode demorar mais algumas horas mas o que queremos é chegar. Diziam algumas boquitas mais preocupadas lá de trás.
Por fim a tão desejada placa de sinalização, Gurué 30 Km, mal nós sabíamos que estávamos mesmo a chegar a Invinha, mais um pouco em estrada de terra e por a sinalização, Escola Secundária Madre Clara de Invinha… Ufa enfim, chegamos, ninguém o disse mas todos pensaram com certeza, eram cerca das 16 horas, estava previsto chegar cerca das 11, ate nem nos atrasámos muito, mal saímos da carrinha. Fomos mais uma vez brindados, com a bela melodia daquelas crianças do Internato: “ Bem-vindos” e algumas flores em especial para as meninas. Foram 11 horas tormentosas para fazer 300 Km, mas valia apena, era o concretizar de um sonho assim como a bela melodia que sentíamos nos ouvidos entoada por aquelas crianças.

Bem-vindos
A esta nossa linda casa
Bem-vindos
A esta nossa linda casa
A alegria é de todos nós
Esperemos que se sintam em casa

Depois de nos acomodarmos, montando as redes mosqueteiros nas camas, tomamos um duche á pressa, ainda deu para esticar as pernas e um pequeno passeio em que alguns aproveitaram para telefonar aos familiares.
Não há rede aqui, dizia a Cláudia,
O Zé Maria, olhando para o telemóvel disse, pouca mas alguma há.
O Armando a rir-se apontou para a vedação, é a esta que te estás a referir?
E lá veio gargalhada geral, o que a Cláudia não gostou muito. Mas tudo não tinha passado de um mal-entendido, quando regressamos ao centro da missão já estava a escurecer, as crianças como que fugiam de nós, talvez o primeiro receio ou a vergonha de lidar com estranhos, preparamo-nos para jantar, eram 18,30, algo muito parecido com um frango estufado e arroz.
Foi com certeza o pensamento de todos: o carinho e amor que nos põe a mesa é tão grande, será que aquelas crianças irão comer igual?
Claro que não, como eles dizem, “ vocês são os nossos ilustres visitantes”, nós pelo contrário apenas nos queríamos sentir como a irmã Flora, humildes servidores.
Ao longo da nossa caminhada em Fafe e Vieira do Minho, seja na fase de angariação de bens essenciais para aquela gente, ou posteriormente para a nossa viagem, muitas foram as duras e más respostas que ouvimos, gostava agora que fossem essas mesmas pessoas a estarem no nosso lugar, sentirem aquela alegria, verem o sorriso sincero de coração aberto e as canções de alegria.
Meu Deus, será que na verdade o que trouxemos vale tanto?
Ficam-me a bailar na mente as palavras de madre Teresa de Calcutá, “é apenas uma gota de água no Oceano” mas vale apena o que fazemos pois cada gota faz crescer esse mesmo oceano.
No final da nossa refeição fomos convidados, para uma pequena festa de boas vindas, aproveitamos a alegria reinante para a distribuição de algumas guloseimas, os sorrisos destas crianças eram a melhor gratificação que alguém poderia alguma vez desejar, faziam-nos transbordar o coração, mas ao mesmo tempo alguns de nós com olhar distante sentiam uma enorme tristeza, por ver que por muito que tivéssemos feito, muito mais ainda poderíamos ter feito, ajudaram-nos a ajudar e sabendo das enormes dificuldades que muitas famílias passam nas freguesias por nós visitadas, as privações que algumas das nossas crianças passam, em nada se comparam, com estas crianças acolhidas nas casas “Mãe Maria Clara, umas órfãs de pais vitimados pelo VIH, outras acolhidas em regime de internato por maus tratos, sabendo que com pouco mais de 20 € euros por mês é possível dar uma vida condigna, desde cama, alimentação e educação.
A festa de boas vindas chegava ao fim, com muita alegria misturada com o nosso cansaço e uma vontade enorme de descansar, mas também aquelas crianças teriam de o fazer, pois a escola começava bem cedo, logo às 6,30 da manhã.
Depois duma oração geral, ainda nos esperava a nossa avaliação e por fim o mais que merecido descanso. Muito era o trabalho a fazer, mas a boa disposição permanecia em nós mesmo com algumas pequenas quezílias, que eram sempre ultrapassadas neste encontro de meditação e avaliação ao final do dia onde não faltou de novo a rede e o telemóvel, apesar da tentativa de explicação que não houve intenção de brincar fosse com quem fosse, apenas um mal-entendido, que se ultrapassou.
No encontro com a irmã Madalena, nessa noite, ficamos a saber que no dia seguinte iríamos ser recebidos pelo Senhor Bispo de Gurué, sabendo da nossa chegada, tinha imensa curiosidade em não só, nos conhecer mas também em nos receber na sede episcopal.







Cada um recolheu-se aos seus aposentos e os mais teimosos ainda tiveram força para umas cartadas e algumas brincadeiras.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

3ª Feira 21 Agosto de Maputo para Quelimane


      

Os primeiros raios de sol, ainda era madrugada, se anoitecia cedo, cerca das 17 horas amanhecia ainda mais cedo logo às 4,30 h, acordávamos com o chilrear dos pássaros, banhos em água fria e a            
Eucaristia matinal que tivemos o privilégio de ter a celebrar um padre que tratava a irmã Flora por mãe, pois tinha sido a parteira no seu nascimento. O padre Tonito na sua homilia demonstrou o carinho e apreço que tinha por aquela santa mulher já desaparecida á quase trinta anos mas ainda tão presente na memória de todos os que com ela pautaram momentos. Afazeres levaram a que o padre Tonito, apenas trocasse algumas palavras connosco, pudéssemos oferecer um livro e conhecêssemos aquela que iria ser a nossa guia espiritual durante a atividade, Irmã Ana Paula, depois das despedidas do Padre esperava-nos um pequeno-almoço que nos surpreendeu, as irmãs Franciscanas mimavam-nos demasiado, tínhamos a noção que o muito que nos davam, com certeza lhes fazia falta para fazer face a outras situações mas de nada valia apena dizer-lhes. Para descontrair um pouco e conhecer também fomos visitar a horta, onde se via um pouco de tudo, hortaliças, frutos e até animais, coelhos galinhas, também alguns pássaros como rolas era no fundo a dedicação da irmã Clara, que fazia daquele espaço um verdadeiro Éden, em terras de Moçambique. Os altos coqueiros chamavam a nossa atenção e lá tínhamos algum cuidado, não fosse levar com um na cabeça vindo de mais de 10 metros de altura, mas também as bananeiras e as mangueiras, não as de regar, mas sim do fruto “manga”, enchiam a nossa curiosidade e faziam cintilar os flaches das máquinas fotográficas que registavam tudo.
Enquanto, a irmã Ana Paula, o Zé Maria, o Fernando e o Armando, foram às comprar e cambiar algum dinheiro, o resto do grupo foi passear e visitar uma escola primária, aqui, alguns recordam a manhã de terça-feira 21Agosto, em que entraram numa sala de aula da escola primária e foram mimados com uma bela melodia sobre “amigos”; todos ficaram sensibilizados e as primeiras lágrimas surgiram. Qual roupa ou calçado de marca? Na maioria, estas crianças andavam descalços, os poucos que estavam calçados, tinham chinelos mais que gastos e rotos, mas usavam uma farda que os distinguia das outras escolas, sim porque cada escola tinha uma farda de cor diferente, aqui, as raparigas saia, e os rapazes calça azul-escuro e uma blusa ou camisa azul claro. Momentos únicos que marcaram a nossa passagem nesta comunidade de São José de Nhenhamane, tomamos conhecimento duma realidade que não sendo de todo ainda a que esperávamos ver em Gurué, nos mostrava um pouco da miséria que, muita gente passava na Capital deste País. A Casa de Madre Clara de Maputo, além de acolher em regime de orfanato, dar apoio nas escolas, também distribui uma refeição composta de sopa e pão, não apenas ás crianças do orfanato e da rua mas igualmente aos idosos e mais carenciados, pelas ruas já víamos algumas pessoas a dirigirem-se á missão
para receberem uma refeição que em muitas situações é a única refeição quente do dia.
Os afazeres para o grupo, levava-nos a ter de ir a um centro comercial, não propriamente um Shopping, que estávamos habituados, mas um centro comercial onde havia de tudo um pouco fizemos as compras necessárias, 25 repelentes com DIT 40%, 25 redes mosquiteiras impregnadas e ainda algumas coisas que podiam ser uteis, como aparelhos elétricos repelentes, pilhas etc., por fim fomos ao banco cambiar dinheiro, tínhamos muitas compras a fazer e dinheiro a entregar, deixamos aqui 3 000 € para que fosse comprada a marquesa para a maternidade do hospital de Invinha, já tínhamos entregue em Lisboa 7 500 €, tínhamos ainda algum para as obras que iriamos fazer em Gurué, era no fundo um pouco a nossa missão.
Estávamos na cidade mais cara do Mundo, nas ruas vendia-se de tudo, cada pessoa aproveitava para vender os seus produtos, alguns já em segunda mão, mas tudo servia para fazer alguns meticais e dar de comer algo aos filhos em casa.
Quando o Zé Maria, Fernando e Armando acompanhados da irmã Ana Paula chegaram á missão, os olhos de algumas jovens do grupo brilhavam, a Sara Pereira, contou a visita á escola e como não pode segurar as lágrimas, quando as crianças cantaram a canção “ amigos”, a Diana também um pouco emocionada, vivia ainda do sonho que estava a concretizar, o restante grupo juntou-se pois aproximava-se a hora de partirmos em direção a Quelimane, tínhamos ainda uma pequena viagem desde a missão até ao Aeroporto Internacional de Maputo, lá tivemos o Serginho
mais uma vez como motorista e a companhia de algumas irmãs, que mesmo sem viajarem connosco, fizeram questão de se irem despedir de nós ao Aeroporto
A viagem até Quelimane seria mais uma vez de avião, ficamos mais descansados quando vimos que não iriamos num Topolev de fabrico Russo, mas sim num Bombardier, de fabrico Brasileiro, foi uma viagem sem grande turbulência, alguns aproveitaram para tirar uma soneca, outros jogavam cartas. Alguns olhos mais brilhantes começavam a contar entre si as emoções vividas com aquelas crianças em Maputo, algumas fotos das belas praias de Maputo que se vislumbravam do ar, o tempo passou rápido, pois cerca das 17 horas já estávamos a preparar para aterrar, mais uma vez a burocracia da policia e do exército e já fora do aeroporto um monte de crianças e irmãs que nos esperavam, foi mesmo só o tempo de carregar a bagagem nos jeeps e partir em direção ao Orfanato, aqui tomamos o primeiro contacto com crianças órfãs, na Casa Madre Clara, tivemos tempo para visitar outra casa dos frades Franciscanos que acolhia apenas rapazes e ter o primeiro contacto com a realidade da pobreza, mas os nossos olhos ainda não tinham visto nada, distribuímos guloseimas e recebíamos as belas melodias daquelas crianças que nos recebiam na sua casa como se fosse a nossa “Bem-vindos a esta nossa linda casa, esperamos que se sintam bem nesta vossa linda casa”. Na verdade sentíamo-nos em casa, não sendo a nossa era como se fosse, tal o carinho com que nos recebiam e sempre nos dando o melhor que tinham, sentimo-nos um pouco mal, porque deram-nos uma camarata onde estavam algumas meninas e colocaram-nas a dormir noutra mas no chão, ao Zé Maria e Zé Fernando deram-lhes um quarto a cada um mas eles não aceitaram, preferiram ficar com o grupo. O Jantar foi juntamente com as crianças, sentíamo-nos bem pois tivemos a oportunidade de partilhar um pouco de carinho, por fim tinham uma pequena festa preparada para nós, a simplicidade desta gente derretia os nossos corações e os olhos não conseguiam reter as lágrimas, não nos queríamos prender demasiado, mas não conseguíamos deixar de dar um afeto aquelas crianças que tanta falta tinham de um miminho, um abraço ou um beijo que fosse, no final da festa e porque tínhamos de nos levantar cedo, o Zé Maria, depois de consultar o Zé Fernando e o Armando, resolveram deixar aqui mil euros do nosso pessoal, para fazer face a algumas despesas que tinham mais necessidade, não sem dizermos á madre superiora que era do nosso pessoal e não daquele que tínhamos para a missão, nesta casa que tão bem nos acolheu, não era o nosso objetivo andar como que a semear dinheiro, mas sentimos esse impulso naquele momento, os sorrisos da Mira da júlia e outras levaram-nos a esta decisão.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

2ª Feira 20 Agosto Viagem para Maputo


Chegamos a Lisboa ainda cedo, logo tocou o telemóvel, era da agência de viagens a darem-nos as boas vindas e para nos entregarem alguma documentação nomeadamente já o Check in feito, apenas teríamos d...


e fazer o embarque e entregar as malas de porão, não primeiro sem plastificarmos todos os sacos de viagem porque a isso eramos obrigados.
Um pouco mais tarde, ligou-nos a Madre superiora de Linda a Pastora, Irmã Maria de Lurdes, não só se vinha despedir de nós, como agradecer toda a dedicação do grupo a esta tão nobre causa e ao mesmo tempo pedir para levarmos alguns documentos para entregar em mão em Maputo.
A boa disposição perdurava, como que a tentarmos esquecer a árdua viagem que ainda nos esperava, tentávamos dormir mas não conseguíamos os pensamentos de momentos recentes eram mais fortes e traziam alguma mágoa, era a família que ficava para trás, o recordar de dificuldades, depois de entramos na zona internacional, a nossa inquietude era cada vez maior, chamávamos a atenção pela farda que nos prezávamos de vestir e do ideal que servíamos, alguns curiosos olhavam-nos, pensando para com os seus botões que iriamos nós fazer a Moçambique, bem na verdade se calhar nem nós sabíamos muito bem, tínhamos um sonho e estávamos perto de o concretizar, mas íamos para uma terra desconhecida e alguns medos nos assolavam. A dureza de quase 11 horas de viagem no avião da TAP com a qualidade reconhecida mundialmente a simpatia e até a curiosidade da nossa missão, íamos falando com um brilhozinho nos olhos do que nos levava a Moçambique e distribuindo alguns livros “ Flauta Partida”, e falando do nosso projeto de voluntariado e solidariedade, nenhum de nós estava preparado para tão longa viagem, enquanto uns dormitavam, o leve ressonar de outros, o Zé Maria devorava um livro e ia escrevendo algumas notas sobre a viagem, os mais audaciosos dedicavam-se a uma jogatina de cartas, a alimentação, diga-se que para quem conhece o Catering, nem era mau, mas em nada se compara a um bom cozido á Portuguesa ou uma bela Feijoada, por fim o tão desejado anuncio do comandante a informar que dentro de minutos aterraríamos no aeroporto internacional de Maputo, olhávamos o horizonte e as belezas daquele mar, á saída do avião sentíamos alguma curiosidade de como seriamos recebidos, que dificuldades teríamos com as autoridades, era para nós um ambiente desconhecido as pessoas olhavam-nos com curiosidade, também alguns receios da nossa parte que com palavras ou gestos pudéssemos melindrar as pessoas, ao sairmos para o hall, logo fomos rodeados por irmãs Franciscanas que com um carinho especial nos receberam, as autoridades até nem foram tão rígidos como esperávamos, em tom de brincadeira perguntavam para onde íamos e quanto tempo vínhamos, quando lhes dizíamos que íamos para Gurué, logo respondiam que devíamos fazer a viagem de autocarro, mas ai demoraria todo o tempo da estadia neste País.
Já no parque do aeroporto que andava em obras, feitas com capital chinês, afinal não é só em Portugal que os chinocas investem já um mini autocarro nos esperava e um Jeep, para levar a bagagem, eram velhinhos mas estavam bastante bem conservados, aquilo que teria capacidade para 15 pessoas levava 21 mais alguma bagagem, só faltava mesmo as galinhas e hortaliça, como tudo era tão diferente e pitoresco do transporte que utilizamos em Portugal, com ar condicionado, aqui apenas os vidros abertos faziam correr alguma aragem e sentirmos o cheiro característico do amontoado de bairros de lata que íamos passando. Poucas pessoas circulavam na estrada neste anoitecer do primeiro dia em África.
Era uma confusão de todo o tamanho, a condução era feita do lado contrário, as estradas lembravam um pouco as das nossas aldeias, um pouco mais esburacadas, de vez enquanto lá aparecia uma lomba e os buracos, bem esses eram mais que muitos mais parecia um queijo suíço num alcatrão já gasto pelo tempo. Por fim chegamos á missão Igreja São José de Nhenhamane, já estava escuro embora apenas fossem 20 horas, foi neste local que estas mulheres simples de Deus nos receberam e deram muito do pouco que tinham, estávamos cansados, mas a felicidade da Irmã Cecília fazia-nos ganhar novas energias. Meu Deus, como se sentiam felizes, aqueles que nos acolhiam neste primeiro dia em terras de moçambique, partilhando connosco a refeição, não foi muito, mas foi bom em especial a fruta. Por fim o aconchego e descanso numa cama e as melgas por companhia, cada um de nós deitava mão ao que tinha, fosse repelente, aparelhos elétricos, velas e até as famosas folhas de eucalipto que o chefe Costa trazia na sua bagagem, mas mesmo assim não escapamos a algumas picadelas, bem o Zé Maria, não sei se foi melga ou leão a verdade é que tinha uma grande mordedura e já a infecionar, lá tivemos de deitar mão á farmácia de serviço e as mãos das nossas enfermeiras do grupo.

sábado, 3 de novembro de 2012

A Vida é feita de encontros e desencontros

         A Vida é feita de encontros e desencontros, partidas e chegadas, umas deixam marcas pela positiva, outras nem tanto.
          Uma noite como tantas outras, numa atividade de Escuteiros igual também a muitas, a desilusão de um dia mal conseguido e até uma lágrima que teimava cair pela face, apenas o silêncio na escuridão e as estrelas que nos acalentavam naquele campo Mundial de Kandersteg.
         Bem lá distante, uma estrela mais brilhante dava luz á noite que avançava, e o silêncio por vezes quebrado pelo pio das aves noturnas até que tu, Fernando, olhando a mesma estrela que eu, quebraste a monotonia daquele momento…
         - Sabes, esta grande atividade está a chegar ao fim, agora o meu desejo era, ir a África fazer Voluntariado.
         Eu não retirei os olhos do Céu, e respondi-te…
         - Sabes que esse era um meu sonho e ao mesmo tempo a minha promessa, para que no dia que o meu filho se Formasse, eu iria em Voluntariado e Solidariedade para junto daqueles que mais precisassem.
         Foi aí que me contaste a história da “ Flauta partida” e da tua tia “ Irmã Flora”. Nesse momento imaginei aquela estrela, sim, a mais brilhante como se fosse a irmã Flora a iluminar o nosso sonho e abençoar o projeto que nascia nas terras longínquas e frias da Suíça.
         Durante o regresso a Portugal falamos várias vezes sobre o mesmo assunto, falamos dos sonhos, idealizamos coisas e até já nos imaginávamos lá a ajudar aquelas crianças e os mais necessitados, eramos os mentores desta iniciativa e vibrávamos com tudo isto.
         Os primeiros passos do projeto, “Mãos dadas por Moçambique - Flauta Partida”, estavam dados.
         Pouco a pouco outros se foram juntando ao projeto, entre avanços e recuos uma luz continuava a brilhar longe, o sonho era grande, para alguns, impossível de concretizar, para os mais ambiciosos, apenas o caminhar e uma luta constante até alcançar a realização do sonho. Aqueles que entraram nesta viagem á posterior nunca chegaram a valorizar o trabalho feito, atrever-me-ia a dizer que no fundo é como um restaurante onde a confeção de um belo Jantar, começa com a aquisição dos melhores produtos (foram as parcerias estabelecidas) depois a confeção (os contactos realizados e preparação), e por fim a degustação visual, (preparação e trabalho pessoal de cada um), o prazer de saborear esse belo prato (viver a atividade em si), claro que no final do jantar servido, mais não resta que pagar e sair do restaurante, satisfeito e feliz com a barriguita cheia e o prazer de ter saboreado uma magnífica refeição (a atividade termina e cada um segue o seu rumo), facilmente nos esquecemos que ainda falta arrumar e lavar a louça, porque no fundo, pagamos para comer, foram os 18 dias fantásticos, muitos sorrisos, algumas lágrimas, muitos amigos e em alguns uma ansiedade louca de um dia voltar, mas a vida é mesmo como uma viagem, que em vários locais tem estações e paragens, a vida é cheia de chegadas e partidas, da mesma forma que chegamos, cheios de sorrisos e alegria, partimos com a sensação de dever cumprido e acima de tudo a certeza que deixamos aquele pequeno mundo de Invinha um pouco melhor do que o encontramos, a sensação de dever cumprido para alguns.
         A verdade é que ainda falta fazer algo, para não dizer muito, tal como naquela noite fria na Suíça, a estrela continua a brilhar bem longe, ela que nos iluminou o caminho, nos amparou, quando em alguns momentos tropeçamos, nunca nos deixou cair, muitos foram os obstáculos, mas sempre com aquele brilho distante a nos iluminar o caminho, lá se encontram de novo os dois amigos, quase dois meses depois do grande sonho concretizado, cansados e desgastados, mas com uma vontade muito grande de continuar, seguir em frente e fazer algo mais.
         - E agora Zé? Ainda falta mandar a avaliação para o FSD, ainda falta entregar os relatórios da atividade em si e cá estamos de novo nós dois como á 3 anos na Suíça.
         - Sim é verdade Zé Fernando, olha lá no alto, aquela estrela, a mesma que á já á alguns anos tem iluminado o nosso caminho.
         - Podes crer é a mesma estrela que estava por cima daquele embondeiro, junto aquela campa branca onde deixamos a       placa, viste?
         - Sim, ao menos que essa estrela que sem nunca o termos dito, mas é a irmã Flora a acompanhar-nos, continue a iluminar aquelas crianças de Maputo, Quelimane e Invinha, sem esquecer todos aqueles que sofrem no mundo. Que a estrela que ao longo da vida da irmã Flora, iluminou aquela gente, continue a brilhar na vida de cada um….
         - Zé Fernando, temos estado no silêncio até agora, ainda se calhar digerindo as palavras daqueles que nos disseram, como a irmã Flora foi e continuará a ser recordada nos últimos 30 anos, vocês também serão recordados nos próximos.
         - Não será tão só isso Zé, tenho falado com alguns jovens de lá no Face, quero manter vivo o escutismo que lá regamos e se um dia a vida o permitir voltar.
         - Conta comigo Zé Fernando. A estrela continuará a brilhar…. E vou começar neste cantinho a escrever a história da nossa viagem, já descansamos e disfrutamos o suficiente agora vamos dar a conhecer as nossas aventuras dia a dia.